La Sebastiana: a casa de Pablo Neruda em Valparaíso


Marcelo Spalding


La Sebastiana é a mais alegre e lúdica das casas de Neruda, uma casa de cinco pavimentos em um dos pontos mais altos de Valparaíso, no litoral chileno.

A casa foi adquirida pelo poeta em 1959, quando estava apenas na “obra grossa” (inacabada), e sua reforma e acabamento foram concluídos em 1961. Neruda se apaixonou pela localização — um ponto de Valparaíso em que se via toda a cidade — e pela sua arquitetura única, irregular e repleta de janelas. Ficou tão encantado com o projeto original, do arquiteto espanhol Sebastián Collado, que manteve o nome em homenagem ao antigo proprietário, que faleceu antes de ver a casa pronta – e só dez anos depois foi descoberta e adquirida por Neruda.

O poeta usou a casa, especialmente como local de lazer, com sua esposa Matilde Urrutia até sua morte, em 1973. Após um período de saques e abandono, em 1991 a casa foi restaurada e em 1º de janeiro de 1992 foi aberta ao público. Em 2011, foi declarada Monumento Histórico Nacional.

O valor do ingresso é em torno de R$ 60,00 por pessoa (fomos no fim de 2025). Embora alguns sites digam que não se pode tirar fotos e haja uma placa indicativa disso na entrada, hoje é permitido, sim, fotografar (ainda bem, seria muito angustiante ver tantos objetos icônicos, ver aquela vista, e não poder fotografar).

O acesso pode ser feito a pé, mas é uma looonga subida. Fomos no domingo e teria sido possível chegar de carro, então táxis e aplicativos são uma alternativa (embora os próprios chilenos nos disseram para ter cuidado com os golpes dos taxistas, infelizmente). Optamos por ir até o Ascensor Espíritu Santo, subir com ele e caminhar até a casa, mas foi uma subida pesada, cerca de 20 minutos morro acima. Não deixe de parar na praça dos poetas, onde a estátua de Neruda está com as estátuas de Vicente Huidobro e Gabriela Mistral – também Prêmio Nobel de Literatura, em 1945, sendo a primeira pessoa latino-americana e a quinta mulher na história a receber o prêmio.

A casa mantém os cômodos decorados com objetos excêntricos e coleções vindas de viagens, como nos conta a narração do audioguia em diversos idiomas que está incluído no preço da visita. A Fundación Pablo Neruda, que administra o museu, restaurou La Sebastiana para que ela fique o mais fiel possível ao período em que Neruda viveu ali com Matilde.

Embora haja cinco pavimentos, os que realmente importam são os três últimos, pois os dois primeiros são mais de acesso à casa, muito pequenos.

No terceiro está a sala de estar do poeta, ampla, iluminada, cheia de janelas para o Pacífico. Neruda amava Valparaíso e dizia que ali encontrou “um pouco de paz e poesia para continuar vivendo”. O móvel que mais emociona é uma grande poltrona, gasta, onde Neruda gostava de passar horas sentado, contemplando a vista, fazendo planos e poesia.

No quarto piso temos acesso ao quarto de Neruda e sua esposa, inclusive com a cama que foi do casal. Chama a atenção os objetos decorativos mesmo nesse ambiente mais íntimo, que refletem sua fascinação por coisas que contam histórias: esculturas, velhos mapas, lunetas. Neste quarto há, por exemplo, uma tapeçaria sobre a cama do casal vinda da Etiópia que representa em imagens a história da Rainha de Sabá.

No quinto andar está o escritório de Neruda. Além de sua máquina de escrever e de uma escrivaninha virada para a janela, com vista privilegiada de Valparaíso, há na parede um impressionante mapa da América datado de 1698, com gravuras e descrições laterais sobre o povo americano.



O pátio da casa permite acesso gratuito e oferece uma visão panorâmica de diferentes ângulos da cidade, além de contar com bons banheiros, acesso a uma biblioteca de poetas chilenos (que estava fechada quando fomos, infelizmente) e uma loja em que é possível comprar livros de Neruda, além de alguns souvenirs. Não há tantas opções de livros ou variações de idiomas, mas os preços são justos e sair de lá com livros novos em espanhol do poeta adquiridos na casa em que ele morou tem seu valor.

Comparando com a casa de outro poeta que visitei, Fernando Pessoa, senti falta de mais poesia. Há dois poemas expostos, impressos em folhas de papel A4, “Las aves del caribe” e “A la Sebastiana” – este último uma ode à casa, lido no dia da sua inauguração. Além disso, há um audioguia em diversos idiomas incluído no preço da visita e que é muito bonito, com tons de história e alguma poesia. Mas a visita é muito mais sobre história, arquitetura, decoração, nostalgia do que poesia ou literatura.

+ clique aqui para ler texto sobre As casas de Pablo Neruda no Chile

+ clique aqui para ler um texto sobre La Chascona (casa de Santiago)



Valparaíso

Valparaíso, fundada no século XVI, é uma das cidades portuárias mais antigas e singulares do Chile. Durante o século XIX, antes da abertura do Canal do Panamá, o porto foi um dos mais importantes da costa do Pacífico, atraindo imigrantes europeus, comércio internacional e uma vibrante vida cultural. Seu crescimento desordenado pelos morros formou um labirinto de vielas, escadas e mirantes, criando o cenário que hoje se tornou Patrimônio Mundial da UNESCO.

A cidade também é conhecida por seus tradicionais ascensores, funiculares construídos a partir do final do século XIX, e pela presença do Congresso Nacional, mudado para lá durante a ditadura chilena e ainda hoje permanecendo na cidade, ao invés de estar na capital Santiago.

A cidade é muito procurada por turistas de todas as partes do mundo – nós mesmos vimos muitas excursões de asiáticos em nosso passeio pelos cerros – e, juntamente com sua vizinha Viña del Mar, é um dos principais destinos turísticos do Chile.


voltar





Viagens Crônicas, por Marcelo Spalding

Entre em contato com o autor.

marcelospalding@gmail.com

CAPA | GUIAS | LIVRO | OFICINA DE ESCRITA | FOTOS | VÍDEOS | CONSULTORIA | EDIÇÃO DE LIVROS | AUTOR